Não há dose segura de agrotóxico

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Não custa lembrar: agrotóxico é veneno.


Que o Brasil é o país campeão de consumo de agrotóxicos, (quase) todo mundo já sabe. Estamos em primeiro lugar neste triste ranking mundial e estima-se que o brasileiro consuma em média 7 litros de agrotóxico por ano. Se alguém negar isso, desconfie.

Desde que o governo liberou mais de 200 agrotóxicos para uso nas lavouras, o assunto tem recebido muita atenção nas rádios, em jornais e até em programas de comédia da TV aberta. A notícia chamou atenção por um motivo simples: nunca foram liberados tantos agrotóxicos num intervalo de tempo tão curto no Brasil. Só em 2019, já foram autorizados 239 novos pesticidas, um recorde. Ao todo já são mais de dois mil agrotóxicos licenciados para uso nas lavouras brasileiras.

Os chamados agrodefensores recebem incentivo do governo, e os subsídios para agrotóxicos somam números exorbitantes, podendo superar R$14,53 bilhões ao ano em abatimento de impostos. Então quem é que paga essa conta?

Nós: produtores e consumidores, é claro.

Muita fake news

Na era da informação, temos que tomar cuidado: tem muita fake news por aí.

Recentemente, a Ministra do Meio Ambiente, Tereza Cristina, afirmou que o Brasil vai aprovar cada vez mais agrotóxicos para se modernizar. De acordo com a Ministra, o Brasil estaria em desvantagem em relação aos países desenvolvidos e isso justificaria a aprovação de novos defensores químicos, mais modernos. Ela também afirmou que agrotóxicos não fazem mal e que não há país mais sustentável do que o Brasil. A Ministra só esqueceu de mencionar que a área da Amazônia com alerta de desmatamento subiu 278% em julho deste ano.

Ignorando os dados, o presidente da República também fez afirmações polêmicas. Segundo Bolsonaro, o Brasil é um dos países que menos usa agrotóxicos no mundo: “Se estivéssemos envenenando os nossos produtos, o mundo não os compraria. É simples! Nós somos país que menos usa agrotóxicos na agricultura. Por que novos agrotóxicos? Para substituir os anteriores. Quem que não quer mudar de carro para um carro mais moderno?", comentou.

Mas há alguns fatos que não dão para ignorar: 44% dos princípios ativos de agrotóxicos liberados no Brasil são proibidos na Europa. E, apesar do acordo de livre comércio recentemente assinado entre a União Europeia e o Mercosul, a UE destacou que a qualquer momento pode suspender as importações de alimentos do Brasil, caso suspeite que o princípio da precaução na Europa está sendo afetado. Isso significa que se houver produtos com grau de contaminação por agrotóxicos com limite além do tolerado pela UE, as importações podem ser suspensas.

PL do Veneno

O projeto de lei 6.299/2002, carinhosamente apelidade do “PL do Veneno”, prevê que os órgãos de controle levem menos tempo para analisar e autorizar o uso de um agrotóxico importado. Enquanto outros países estão tentando ser mais restritivos aos agrotóxicos, no Brasil vamos na contramão.

Com a flexibilização cada vez maior, a classificação desses produtos em relação à sua toxicidade também mudou. Antes da PL, cerca de 800 agrotóxicos pertenciam à categoria “extremamente tóxicos” (em um total de cerca de 2300 agrodefensores – aproximadamente 34,7%). Agora somente 43 são classificados como "extremamente tóxicos".

Segundo o ex-presidente da ABRA, “O que eles fazem é uma abordagem do tema a partir do interesse do fazendeiro, sem estar preocupado com o consumidor e muito menos com o meio ambiente”. Ele acrescenta que, em comparação com a Europa, o Brasil não tem o mesmo rigor em relação à fiscalização dos alimentos. Pelas novas regras, agrotóxicos que antes eram considerados “altamente tóxicos” podem ser classificados com toxicidade moderada, enquanto os “pouco tóxicos” passam a ser liberados de classificação, ou seja: não advertem o consumidor. 

Não há dose segura

Uma pesquisa encomendado pelo Ministério da Saúde e realizada pelo Instituto Butantã analisou 10 agrotóxicos comumente usados no Brasil, entre eles o glifosato, um dos mais utilizados na agricultura. O estudo revelou que os agrodefensores são altamente tóxicos ao meio ambiente e a qualquer tipo de vida, em qualquer concentração, mesmo utilizados em dosagens equivalentes a até um trigésimo do recomendado pela Anvisa.

A pesquisa testou várias dosagens de agrotóxicos em peixes que são 70% similares geneticamente aos seres humanos, têm um ciclo de vida curto e são transparentes (o que facilitou a observação dos testes). O resultado final indicou que todos os agrotóxicos, em qualquer quantidade, podem ser letais para os seres humanos. Segundo a imunologista Mônica Lopes-Ferreira, diretora do Laboratório Especial de Toxinologia Aplicada, responsável pela pesquisa, “Não existem quantidades seguras. Se [os agrotóxicos] não matam, causam anomalias. Nenhum peixe testado se manteve saudável. (…) Houve índices grandes de mortes e também de deformações nos peixes que nasceram ali, ou outro tipo de doença. A conclusão é a seguinte: não há dose mínima para os produtos que são tóxicos”.

E é aí que vemos o descaso dos governantes, despreocupados com a saúde da população e o desenvolvimento sustentável. Precisamos chamar as coisas pelo nome certo: agrotóxico é veneno.


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